Quando pensamos em salvação, é natural começar pelo momento em que uma pessoa ouve o Evangelho, arrepende-se e crê em Jesus Cristo. Do ponto de vista da experiência humana, parece que tudo começou ali. As Escrituras, porém, nos obrigam a olhar para muito antes desse momento.
A obra da salvação não nasceu quando o pecador decidiu procurar Deus. Ela está relacionada ao propósito de Deus anterior à própria história humana e se manifesta no tempo por meio da obra de Jesus Cristo. É nesse horizonte que a soteriologia — a doutrina da salvação — precisa ser compreendida.
Isso não torna a fé, o arrependimento ou a pregação do Evangelho irrelevantes. Pelo contrário. A questão é compreender de onde procede a salvação, por que o pecador necessita dela e como a ação soberana de Deus chega concretamente à vida daquele que crê.
A salvação não foi uma resposta improvisada à queda
Pedro escreve a cristãos que haviam sido resgatados de sua antiga maneira de viver. Ao explicar o preço desse resgate, ele não aponta para qualquer mérito humano, mas para Cristo:
“Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós.”
1 Pedro 1:19-20 (ACF)
A afirmação é importante porque coloca a obra de Cristo numa perspectiva que antecede sua manifestação histórica. Pedro não diz que Cristo começou a fazer parte do propósito de Deus depois que o homem pecou. Ele afirma que Cristo foi conhecido antes da fundação do mundo e posteriormente manifestado.
A cruz aconteceu na história. Jesus foi crucificado em determinado momento, morreu realmente e ressuscitou. Entretanto, aquilo que aconteceu no tempo não foi uma reação de Deus a um acontecimento que o surpreendeu.
A redenção pertence ao seu propósito.
Isso significa que não devemos construir a doutrina da salvação começando pela vontade humana e depois perguntando como Deus responde a ela. A Escritura nos conduz primeiro ao próprio Deus.
Antes de existir nossa decisão, existia seu propósito.
Antes de existir nossa fé, Cristo já estava no centro da redenção.
A eleição faz parte desse propósito
Essa perspectiva aparece também no início da carta aos Efésios. Paulo descreve as bênçãos espirituais dos que estão em Cristo e leva novamente o leitor para antes da fundação do mundo.
A eleição bíblica não é apresentada como prêmio concedido por Deus a pessoas que primeiro demonstraram ser espiritualmente superiores. Ela está relacionada à vontade e à graça daquele que salva.
Esse ponto precisa ser tratado com cuidado, porque a doutrina da eleição pode facilmente ser transformada em assunto de especulação. A Escritura, porém, não a apresenta para alimentar curiosidade sobre os decretos secretos de Deus. Paulo a apresenta no contexto das bênçãos recebidas em Cristo.
A eleição, portanto, não deve ser separada de Cristo.
Também não deve produzir orgulho.
Se a origem da salvação estivesse em alguma qualidade que diferenciasse o salvo dos demais, haveria motivo para vanglória. Mas quando a origem está na graça de Deus, a conclusão é exatamente a contrária: aquele que foi alcançado não possui razão para atribuir a si mesmo o mérito.
A pergunta deixa de ser “o que havia em mim para que Deus me escolhesse?” e passa a reconhecer que a salvação procede da vontade graciosa de Deus.
Por que a iniciativa precisa ser de Deus?
A resposta aparece quando consideramos seriamente a condição humana depois da queda.
Um entendimento superficial do pecado produz inevitavelmente uma compreensão superficial da graça. Se o pecador é apenas alguém moralmente enfraquecido, talvez precise somente de orientação, incentivo e oportunidade para voltar a Deus.
Paulo descreve a situação de forma muito mais grave:
“E VOS vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados.”
Efésios 2:1 (ACF)
A imagem não é de alguém saudável que perdeu o caminho. Também não é simplesmente a de alguém espiritualmente ferido que ainda possui em si os recursos necessários para restaurar sua própria condição.
Paulo fala em morte.
Poucos versículos depois, o apóstolo mostra de onde vem a mudança. O movimento decisivo não começa com “mas o homem”. Começa com Deus, rico em misericórdia, vivificando aqueles que estavam mortos em suas ofensas.
Essa condição ajuda a compreender por que a salvação precisa ser graça desde o princípio. O pecador não necessita apenas de informação. Necessita de vida.
O Evangelho é anunciado externamente, mas Deus precisa operar no coração.
É nesse ponto que a doutrina da salvação se torna profundamente humilhante para o orgulho humano. Não chegamos a Cristo porque éramos espiritualmente mais perspicazes do que aqueles que permaneceram incrédulos. Dependemos da misericórdia de Deus.
O Evangelho precisa ser anunciado
A soberania de Deus na salvação não torna a evangelização desnecessária.
Atos 13 mostra Paulo e Barnabé anunciando a Palavra em Antioquia da Pisídia. Depois da rejeição encontrada entre parte de seus ouvintes, eles se voltam aos gentios. Lucas registra então a resposta destes à mensagem:
“E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna.”
Atos 13:48 (ACF)
O texto reúne duas realidades que às vezes são indevidamente colocadas uma contra a outra.
A Palavra foi pregada.
Pessoas ouviram.
Pessoas creram.
Ao mesmo tempo, Lucas relaciona essa fé ao propósito de Deus.
Não precisamos enfraquecer nenhuma dessas verdades para preservar a outra. A eleição não elimina a pregação; Deus realiza seu propósito também por meio do anúncio do Evangelho.
Isso possui uma consequência prática importante. O cristão não conhece antecipadamente quem será salvo. Sua responsabilidade é anunciar Cristo. O chamado do Evangelho deve ser proclamado, e homens e mulheres são convocados a arrepender-se e crer.
A soberania divina, portanto, não é desculpa para silêncio missionário. Ela fornece confiança para a missão: a eficácia final da salvação não depende da habilidade do evangelista de manipular uma decisão humana.
Onde entra a fé?
Se Deus toma a iniciativa, alguém poderia concluir que a fé humana não possui importância. Essa conclusão não corresponde ao ensino bíblico.
O pecador realmente crê em Cristo.
A questão é que a fé não deve ser transformada em mérito.
Ela não funciona como uma obra especialmente valiosa que Deus recompensa com a salvação. A fé é o meio pelo qual recebemos Cristo e descansamos naquilo que ele realizou.
Por isso, quando Paulo explica a condição do homem diante de Deus em Romanos 3, ele primeiro elimina a possibilidade de justificação mediante as obras da lei. A lei revela o pecado, mas não oferece ao transgressor uma justiça própria capaz de absolvê-lo.
Então Paulo apresenta a resposta divina:
“Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.”
Romanos 3:24 (ACF)
A palavra “gratuitamente” impede que transformemos a justificação em salário.
Deus não justifica o pecador porque este finalmente acumulou obras suficientes. A redenção está em Cristo Jesus.
É também por isso que a fé não pode ser isolada de seu objeto. Não somos salvos simplesmente porque acreditamos intensamente em alguma coisa. A fé salvadora olha para Cristo.
O valor decisivo não está na força psicológica daquele que crê, mas na suficiência daquele em quem ele crê.
Como Deus pode justificar alguém culpado?
Aqui chegamos a uma das questões centrais da soteriologia.
Se Deus é justo e o homem é pecador, como Deus pode justificar o culpado sem negar sua própria justiça?
A resposta não pode ser que Deus simplesmente resolveu ignorar o pecado. Um juiz que sabe que alguém é culpado e arbitrariamente declara que sua culpa não importa não está praticando justiça.
Romanos 3 conduz a resposta para a cruz.
Cristo é apresentado como propiciação pelo seu sangue. A culpa humana não é tratada como ilusão. O pecado é suficientemente sério para exigir a obra redentora do Filho de Deus.
É justamente por causa de Cristo que Paulo pode afirmar que Deus permanece justo enquanto justifica aquele que tem fé em Jesus.
A cruz, portanto, não deve ser tratada apenas como demonstração de amor. Nela, Deus manifesta seu amor sem abandonar sua justiça.
Cristo ocupa o lugar central porque a salvação não consiste em Deus fingir que o pecador se tornou inocente por conta própria. O fundamento da justificação está na obra do Salvador.
Justificação e santificação não devem ser confundidas
Quando Deus justifica o pecador, isso não significa que aquela pessoa imediatamente se torna moralmente perfeita.
Justificação trata de sua condição diante de Deus. Santificação trata da transformação que ocorre na vida daquele que foi alcançado pela graça.
A distinção é necessária porque dois erros surgem quando essas verdades são confundidas.
O primeiro acontece quando nossa transformação moral passa a ser usada como fundamento da aceitação diante de Deus. Nesse caso, a consciência nunca encontra verdadeiro descanso. Em dias de maior obediência, a pessoa imagina estar próxima de Deus; depois de uma queda, passa a pensar que precisa reconstruir sua aceitação.
O segundo erro aparece quando a graça é usada como desculpa para continuar deliberadamente no pecado.
A Escritura não permite nenhum dos dois.
A santificação não compra a justificação, mas aquele que foi vivificado por Deus não recebe licença para permanecer indiferente ao pecado. A graça que salva também conduz a uma nova maneira de viver.
As boas obras, portanto, têm lugar na vida cristã. O que elas não podem ocupar é o lugar de Cristo.
A ordem da salvação aponta para a ação de Deus
Romanos 8 oferece uma síntese particularmente importante para entendermos a continuidade da obra salvadora:
“E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou.”
Romanos 8:30 (ACF)
Observe novamente o sujeito das ações.
Deus predestina.
Deus chama.
Deus justifica.
Deus glorifica.
Paulo não está descrevendo acontecimentos desconectados. Existe continuidade entre o propósito de Deus e a consumação da salvação.
Isso ajuda a organizar aquilo que a teologia costuma chamar de ordem da salvação. Não significa que todos os aspectos possam ser separados cronologicamente como se acontecessem sempre em intervalos observáveis. Trata-se de reconhecer relações bíblicas entre o propósito de Deus, seu chamado, a fé do pecador, sua justificação, sua santificação e sua glorificação.
O ponto central permanece: a história da salvação de uma pessoa não pode ser explicada adequadamente colocando o homem como seu autor principal.
Isso significa que o homem não tem responsabilidade?
Não.
A Bíblia afirma a soberania de Deus sem transformar o homem em alguém moralmente irresponsável.
O Evangelho ordena arrependimento e fé. A incredulidade é tratada como culpa. Cristo deve ser anunciado. O pecador deve crer.
A dificuldade aparece quando tentamos resolver a relação entre soberania divina e responsabilidade humana eliminando um dos lados.
As Escrituras não nos dão essa permissão.
Quando Paulo e Barnabé pregam em Atos 13, alguns rejeitam a Palavra e outros creem. O texto não apresenta os incrédulos como vítimas inocentes de Deus. Ao mesmo tempo, quando descreve aqueles que creram, Lucas não atribui o resultado final à superioridade espiritual deles.
Devemos preservar aquilo que o próprio texto preserva.
O homem é responsável diante de Deus, e Deus permanece soberano na salvação.
Nem toda pergunta filosófica decorrente dessa relação recebe uma explicação completa nas Escrituras. A fidelidade bíblica também exige saber onde parar. Não precisamos ultrapassar o que foi revelado para afirmar com segurança aquilo que foi revelado.
A segurança do salvo repousa em Deus
A mesma passagem de Romanos 8 que relaciona predestinação, chamado e justificação termina em glorificação.
Isso possui enorme importância pastoral.
Se a salvação dependesse finalmente da capacidade humana de sustentar a si mesma, a segurança cristã estaria sempre apoiada em terreno instável. O crente precisaria olhar continuamente para seu desempenho e perguntar se conseguiu fazer o suficiente para continuar salvo.
Paulo dirige o olhar para outro lugar.
A confiança não está na alegação de que o cristão jamais tropeçará. Também não está na suposição de que seus pecados deixaram de ser graves.
A segurança repousa na fidelidade daquele que salva.
Isso não produz negligência espiritual. Quem compreende a graça não recebe autorização para brincar com o pecado. A perseverança cristã inclui luta, arrependimento, oração, obediência e dependência constante de Deus.
Mas essas coisas não substituem Cristo como fundamento da esperança.
Quando o cristão cai, ele não precisa inventar uma nova obra de redenção. Precisa arrepender-se e voltar seus olhos para o mesmo Salvador cuja obra continua sendo suficiente.
A doutrina da eleição não autoriza arrogância
Existe ainda uma aplicação que precisa nascer dessa doutrina.
Se alguém compreende eleição e predestinação e se torna espiritualmente arrogante, compreendeu mal aquilo que afirma defender.
Que motivo possui o recipiente da misericórdia para vangloriar-se?
A doutrina da graça retira do homem a possibilidade de colocar a si mesmo no centro da salvação. Não fomos alcançados porque Deus descobriu em nós uma superioridade que outros não possuíam.
Por isso, a eleição deveria produzir humildade, gratidão e adoração.
Também deveria mudar a maneira como enxergamos quem ainda não crê. O incrédulo não é alguém diante de quem podemos exibir superioridade espiritual. É alguém que necessita da mesma misericórdia sem a qual nenhum de nós poderia permanecer diante de Deus.
Isso afeta inclusive a evangelização.
Pregamos Cristo com seriedade porque o Evangelho é o anúncio da salvação. Chamamos pessoas ao arrependimento e à fé. Argumentamos, ensinamos e respondemos objeções. Mas não tratamos conversões como troféus de nossa capacidade de persuasão.
A glória pertence a Deus.
Afinal, quem é o autor da salvação?
Quando reunimos essas passagens, uma linha se torna clara.
A redenção em Cristo pertence ao propósito de Deus anterior à fundação do mundo. Deus elege segundo sua vontade. O pecador, morto em seus delitos, necessita ser vivificado. O Evangelho é anunciado. O chamado de Deus alcança seus propósitos. O pecador crê em Cristo. Pela graça, é justificado. Durante sua vida, é santificado. E a obra de Deus caminha para sua consumação na glorificação.
A experiência humana da salvação é real. Existe um momento em que alguém ouve e crê. Existe arrependimento verdadeiro. Existe uma vida que começa a ser transformada.
Mas nada disso permite ao homem assumir para si a autoria daquilo que pertence a Deus.
Essa verdade confronta nosso orgulho, mas também oferece descanso.
Se nossa esperança estivesse na capacidade de produzir nossa própria justiça, jamais saberíamos quando seria suficiente. Se dependesse de conservar por nossas próprias forças tudo aquilo que recebemos, viveríamos entre presunção e desespero.
O Evangelho oferece fundamento melhor.
Nossa esperança está em Jesus Cristo.
Foi seu sangue que realizou a redenção. É sua justiça, não nossa pretensão de mérito, que sustenta a justificação. E é a graça de Deus que impede o pecador salvo de transformar sua própria história em motivo de vanglória.
Estudar soteriologia, portanto, não deveria terminar apenas com um esquema doutrinário mais organizado.
Deveria terminar com o orgulho diminuído, Cristo engrandecido e a certeza de que a salvação, do princípio ao fim, pertence ao Senhor.
FAQ
O que significa soteriologia?
Soteriologia é o estudo da doutrina da salvação. Examina biblicamente temas como pecado, eleição, chamado, fé, justificação, santificação, perseverança e glorificação.
A eleição elimina a necessidade de evangelizar?
Não. Atos 13 apresenta simultaneamente a pregação do Evangelho, pessoas ouvindo e crendo e o propósito soberano de Deus. A pregação é um dos meios pelos quais a mensagem da salvação chega aos pecadores.
A fé é uma obra que merece a salvação?
Não. A fé recebe Cristo e descansa em sua obra. Romanos 3 apresenta a justificação como gratuita e fundamentada na redenção que há em Jesus Cristo.
Qual a diferença entre justificação e santificação?
A justificação diz respeito à condição do pecador diante de Deus com fundamento em Cristo. A santificação diz respeito à transformação progressiva da vida daquele que foi salvo.
O cristão pode ter segurança da salvação?
A segurança bíblica não está fundamentada na perfeição do desempenho humano, mas na fidelidade de Deus e na obra de Cristo. Romanos 8 relaciona o propósito divino, chamado, justificação e glorificação.


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