"Deus é mau?" é a pergunta que quase ninguém faz em voz alta, mas que quase todo crente já fez no silêncio. Ela nasce quando a oração não é respondida, quando o ímpio prospera, quando a doença chega sem aviso e o céu parece calado. Se Deus é bom, por que permite o mal? Se é poderoso, por que não intervém? A Bíblia não trata essa pergunta como rebeldia: ela a coloca na boca de um profeta e registra a resposta de Deus.
Este estudo reúne três passagens que, juntas, formam uma resposta: o grito de Habacuque diante da violência, o veredito de Romanos 1 sobre a retribuição divina e a disciplina de um Pai explicada em Hebreus 12. O fio que costura as três é simples: Deus não é o autor do mal, não se compraz na dor do seu povo e não o abandonou — mas também não é o Deus domesticado que gostaríamos de controlar.
O grito de Habacuque
Habacuque viveu num período de declínio espiritual de Judá. A aliança tinha sido quebrada, a idolatria se espalhava e a justiça se tornava distorcida. O profeta viu tudo isso com clareza, clamou por avivamento e não recebeu resposta. Então fez a pergunta que muitos fazem hoje:
“Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! e não salvarás?” (Habacuque 1.2, ACF)
A queixa dele não é descrença; é a oração de quem conhece a Deus e não entende a demora. E note a lógica do seu argumento: é justamente a santidade de Deus que torna a pergunta inevitável.
“Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar. Por que olhas para os que procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele?” (Habacuque 1.13, ACF)
Se Deus fosse indiferente ao mal, o silêncio não escandalizaria ninguém: a pergunta dói porque cremos que ele é santo. E é aí que o profeta faz algo decisivo.
Em vez de olhar para a ameaça, olhar para Deus
A resposta de Deus não foi o avivamento esperado. Ele revelou que estava levantando os caldeus — uma nação violenta e idólatra — para executar juízo. O profeta ficou perplexo: como o Santo pode usar o ímpio? E, em vez de fixar os olhos no exército que se aproximava, ele passou a contemplar quem Deus é.
“Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR meu Deus, meu Santo? Nós não morreremos. Ó SENHOR, para juízo o puseste, e tu, ó Rocha, o fundaste para castigar.” (Habacuque 1.12, ACF)
Daí saem atributos que mudam tudo. Deus é eterno: o poder da Babilônia era passageiro, mas o Senhor permanece o mesmo. Deus é a Rocha, figura que Moisés já usara para falar da imutabilidade e da retidão divinas:
“Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos justos são; Deus é a verdade, e não há nele injustiça; justo e reto é.” (Deuteronômio 32.4, ACF)
E Deus é o Deus da aliança — o SENHOR, "meu Deus", "meu Santo". Não é uma força distante, mas aquele que se comprometeu com um povo. É por isso que Habacuque consegue concluir "nós não morreremos": o castigo viria, a nação seria devastada, mas o povo de Deus não seria extinto. A disciplina não é o fim.
Deus é o autor do mal?
Aqui a pergunta do título fica precisa. Se Deus levantou os caldeus, ele é o autor do pecado deles? Não: Deus usa o mal que os homens praticam livremente sem se tornar responsável por ele. Isaías registra uma declaração mal compreendida:
“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas.” (Isaías 45.7, ACF)
O "mal" aqui não é o pecado, mas a calamidade — o juízo que cai sobre nações. Não se trata de Deus praticando injustiça, mas de Deus governando a história, inclusive os poderosos violentos, e voltando contra eles o que fizeram. A Escritura nunca coloca a origem do pecado em Deus; coloca-a no homem e nos anjos caídos. Tiago é categórico:
“Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.” (Tiago 1.13, ACF)
Deus não seduz ninguém ao pecado: ele é santo, e "não há nele injustiça". Isso não resolve cada detalhe do problema do mal, mas remove a acusação central — a maldade do mundo não nasce do caráter de Deus, e sim da rebelião de criaturas que ele fez livres.
Quando o castigo é o próprio pecado
Romanos 1 acrescenta uma camada que incomoda e que responde de frente à pergunta. Paulo descreve o que acontece quando a humanidade rejeita o conhecimento de Deus que a consciência e a criação já ofereciam. O veredito aparece três vezes no capítulo, sempre com o mesmo verbo:
“Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.” (Romanos 1.24-25, ACF)
"Deus os entregou". Essa é a forma mais séria da ira de Deus descrita na Bíblia, e não se parece com um raio caindo do céu. Deus simplesmente solta o freio: deixa de refrear as paixões e permite que o pecador vá até o fim daquilo que escolheu.
Por isso o silêncio de Deus diante da maldade não é sinal de indiferença: muitas vezes é juízo. Quando a impunidade se generaliza e uma sociedade se dissolve moralmente, isso não prova que Deus não se importa — pode ser o sinal de que ele retirou a mão que segurava. Quem rejeitou a Deus recebe o deus que escolheu, e a conta se acumula até o dia do juízo. Mas todo pecador que ainda não chegou ao fundo da própria corrupção foi contido por alguma coisa — uma mãe que ensinou a verdade, uma lei que intimida, uma autoridade que pune —, e isso também é bondade de Deus.
Nem todo sofrimento é castigo
É preciso cuidado aqui, porque a retribuição mal aplicada produz crueldade. Se todo sofrimento fosse castigo por um pecado específico, os amigos de Jó teriam razão — e Deus disse que não tinham. Hebreus 12 trata de outra categoria de sofrimento, com uma metáfora doméstica:
“Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho.” (Hebreus 12.6, ACF)
O sofrimento do crente não é a ira de um juiz, mas a correção de um pai. E o argumento incomoda: se você não é corrigido, o problema é mais grave, porque filhos legítimos são disciplinados. O propósito é declarado sem ambiguidade:
“Porque aqueles, na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade.” (Hebreus 12.10, ACF)
Deus disciplina para nos fazer participantes da sua santidade, não para nos destruir. E o resultado, embora tarde, é certo:
“E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela.” (Hebreus 12.11, ACF)
No momento, dói; depois, produz fruto. Aí está a diferença entre o sofrimento do ímpio e o do filho de Deus: para o primeiro, ele antecipa o juízo; para o segundo, forma caráter e desapega o coração deste mundo.
O que Deus nunca faz
Se alguém ainda suspeita que Deus se compraz em ver o seu povo sofrer, Lamentações fecha a porta:
“Porque não aflige nem entristece de bom grado aos filhos dos homens.” (Lamentações 3.33, ACF)
Deus não é um observador cruel que se deleita na dor: ele não aflige de bom grado. Quando corrige, é porque há um bem maior em vista — o sofrimento é meio, nunca fim. E há uma garantia ainda mais antiga, formulada por Abraão ao interceder por Sodoma:
“Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” (Gênesis 18.25, ACF)
Abraão apela ao caráter de Deus, e Deus aceita o argumento. O Juiz de toda a terra fará justiça: o que hoje parece impunidade é prazo, não esquecimento. E esse Juiz entrou na história como o Cordeiro que levou a culpa do seu povo — na cruz, Deus não assistiu ao sofrimento de longe, ele o atravessou.
O que fazer com a dúvida
Habacuque termina a sua queixa com uma decisão, e ela é o modelo para quem hoje faz a mesma pergunta:
“SOBRE a minha guarda estarei, e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que falará a mim, e o que eu responderei quando eu for argüido.” (Habacuque 2.1, ACF)
Ele não desiste de Deus nem abandona a fé: sobe à torre de vigia e espera. Isso significa continuar orando, meditar nas promessas e aguardar o tempo de Deus sem amargura. O Salmo 73 descreve a mesma virada: o salmista só entendeu a situação dos ímpios quando entrou no santuário de Deus — a perspectiva mudou quando ele voltou a olhar para Deus, e não para o problema.
A resposta que não cabe
Deus é mau? Não. Ele é eterno, é a Rocha cuja obra é perfeita, e não há nele injustiça. Não tenta ninguém ao pecado, não aflige de bom grado e corrige como pai. O mal não nasce dele; nasce de criaturas livres que preferiram o pecado. E quando o mal parece vencer, o que existe é um prazo — não uma promessa de impunidade.
Nem todas as respostas cabem na nossa compreensão. Paulo encerra um longo argumento sobre a soberania de Deus exatamente assim:
“Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Romanos 11.33, ACF)
Há perguntas que só serão respondidas do outro lado, e algumas dores nunca terão explicação nesta vida. Mas elas têm destino: o fim de toda a história é um novo céu e uma nova terra onde habita a justiça e onde o pecado não será mais possível. A queda, o sofrimento, a cruz e a disciplina da igreja servem a esse desígnio maior — um povo glorificado, que não pode mais pecar.
Então volte-se para Deus em vez de se afastar dele. Apresente a sua queixa, como fez o profeta, mas não desça da torre. Guarde a fé, siga a paz com todos e não endureça o coração como Esaú, que trocou o que era eterno por um prato de comida e depois procurou o arrependimento sem encontrá-lo. Não desista na luta contra o pecado: você ainda não resistiu até o sangue. E, se a resposta demorar, espere — porque o Juiz de toda a terra não erra, e o Pai que corrige é o mesmo que ama.


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