Há perguntas sobre a vontade de Deus que podem nos deixar inseguros por muito tempo. Qual emprego escolher? Com quem casar? Em que cidade morar? Há, porém, uma parte da vontade de Deus que não está escondida. Paulo declara: “Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação; que vos abstenhais da fornicação” (1 Tessalonicenses 4:3).
Esse texto impede que a santidade seja tratada como assunto reservado a um grupo especialmente religioso. A santificação pertence à própria vida cristã. Ela nasce daquilo que Deus fez por seu povo e se torna visível no modo como usamos o corpo, tratamos as pessoas, perdoamos, falamos, decidimos e obedecemos.
Santidade também não significa perfeição sem pecado. A vida cristã é marcada por crescimento, combate e arrependimento. A pergunta bíblica não é se já chegamos ao ponto em que não precisamos mais ser corrigidos, mas se a graça de Deus está produzindo uma nova direção em nós.
A santidade começa no que Deus já fez
Colossenses 3 não começa mandando o cristão construir uma identidade espiritual para então ser aceito por Deus. Paulo fala a pessoas que já pertencem a Cristo. Antes de ordenar como devem viver, ele as chama de “eleitos de Deus, santos e amados” e, a partir dessa realidade, diz: “Revesti-vos” (Colossenses 3:12).
A ordem é importante. O crente não busca santidade para comprar o amor de Deus. Ele busca santidade porque foi alcançado pela graça e agora pertence ao Senhor. A obediência não é a moeda com que pagamos pela salvação; é fruto da nova vida que recebemos.
Isso também ajuda a distinguir justificação de santificação. Na justificação, Deus recebe o pecador com base na obra de Cristo. Na santificação, aquele que foi recebido por graça passa a ser transformado em sua maneira de viver. Uma não deve ser confundida com a outra, mas também não devem ser separadas como se alguém pudesse ter sido salvo e permanecer em paz com o pecado.
Por isso a santificação é progressiva. Paulo escreve aos tessalonicenses que eles já haviam aprendido “de que maneira convém andar e agradar a Deus” e os exorta a “progredir cada vez mais” (1 Tessalonicenses 4:1). O cristão continua sendo corrigido, amadurecido e conduzido a uma obediência mais concreta.
A vontade de Deus alcança o nosso corpo
Em 1 Tessalonicenses 4, Paulo aplica a santificação diretamente à sexualidade. O cristão deve se abster da fornicação e viver essa área da vida em santificação e honra, não dominado pela paixão da concupiscência como aqueles que não conhecem a Deus (1 Tessalonicenses 4:3–5).
A Bíblia não trata o corpo como uma área independente da fé. O que fazemos sexualmente importa diante de Deus. O evangelho não nos dá uma nova crença enquanto deixa nossos desejos governarem a vida antiga. Conhecer a Deus modifica também a maneira como lidamos com nossos desejos e com nosso corpo.
Isso confronta uma desculpa comum: “Eu sinto desejo, logo preciso satisfazê-lo.” A existência do desejo não transforma toda forma de satisfação em algo legítimo. O cristão continua tendo desejos reais, mas aprende a submetê-los à vontade revelada de Deus.
Pornografia, relações sexuais fora do casamento, adultério e outras formas de impureza não podem ser tratados como pecados pequenos ou inevitáveis. O chamado apostólico é à abstinência daquilo que Deus condena e a uma vida de “santificação e honra”. Não se trata de desprezar a sexualidade. Trata-se de reconhecer que aquilo que Deus criou também permanece sob sua autoridade.
Paulo acrescenta uma advertência: o pecado pode oprimir, enganar e ferir outras pessoas, e o Senhor não é indiferente a isso. “Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação” (1 Tessalonicenses 4:7).
Santidade também aparece na maneira como tratamos as pessoas
Se 1 Tessalonicenses 4 impede uma espiritualidade que ignora o corpo, Colossenses 3 impede uma espiritualidade que reduz santidade à sexualidade.
Paulo descreve a nova vida com palavras relacionais: misericórdia, benignidade, humildade, mansidão e longanimidade. Depois acrescenta: “Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também” (Colossenses 3:13).
Isso coloca a santificação dentro de casa, da igreja, do trabalho e das relações comuns. Uma pessoa pode manter aparência religiosa e, ao mesmo tempo, ser dura com a família, arrogante com os irmãos, impaciente com quem a contraria e incapaz de perdoar. Colossenses não permite separar essas coisas. O modo como tratamos pessoas faz parte da vida santa.
Mansidão não é ausência de firmeza. Humildade não é desprezar a si mesmo. Longanimidade não é fingir que o erro não existe. Essas virtudes mostram uma vida na qual a força deixou de servir ao orgulho e passou a servir ao amor.
O mesmo vale para o perdão. Paulo leva o crente de volta ao perdão que recebeu de Cristo. Quem vive da misericórdia de Deus não pode transformar a falta alheia em uma dívida que será cobrada para sempre.
E, acima de tudo, Paulo manda revestir-se “de amor, que é o vínculo da perfeição” (Colossenses 3:14). Uma santidade que convive tranquilamente com arrogância, rancor e desprezo pelo próximo contradiz o retrato que o próprio texto apresenta.
A Palavra de Cristo precisa habitar em nós
A santificação não cresce por força de vontade isolada. Deus não apenas ordena uma vida santa; ele também providencia meios pelos quais seu povo é formado.
Colossenses 3:16 diz: “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente”. A Palavra deve ter lugar permanente na mente e na vida da igreja. Ela instrui, admoesta, forma o louvor e reorganiza a maneira de pensar.
Jesus orou ao Pai: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17:17). A santificação, portanto, não pode ser construída sobre impressões pessoais que substituem a Escritura. A pergunta não é apenas “o que eu sinto que Deus quer?”, mas “o que Deus já revelou?”.
Isso importa quando buscamos direção. Nem todo detalhe do futuro foi revelado, mas a vontade moral de Deus está diante de nós. Se uma decisão exige mentira, impureza, deslealdade ou desobediência clara, não precisamos de um sinal extraordinário para saber que esse caminho contradiz a santidade.
A Palavra nos tira da dependência de uma espiritualidade governada por impulsos. Ela nos fornece o padrão pelo qual pensamentos, desejos, decisões e conselhos precisam ser examinados.
Tudo pode ser feito em nome do Senhor Jesus?
Paulo encerra essa seção de Colossenses com um teste abrangente: “E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Colossenses 3:17).
Essa frase leva a santidade para além dos momentos considerados “espirituais”. Ela alcança o que falamos, os ambientes que escolhemos, o entretenimento que consumimos, a maneira como trabalhamos, o que fazemos com o corpo e como nos relacionamos.
Antes de perguntar apenas se determinada prática é permitida, há outra pergunta que o texto nos obriga a considerar: posso fazer isso em nome do Senhor Jesus e dar graças a Deus por isso?
O mesmo princípio aparece em 1 Coríntios 10:31: “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus.”
Santidade é uma vida progressivamente colocada debaixo do senhorio de Cristo.
E quando a luta contra o pecado continua?
É necessário evitar dois erros.
O primeiro é usar a graça como desculpa para permanecer deliberadamente no pecado. Paulo não trata a santificação como opcional. O segundo é concluir que toda queda prova, por si só, que não existe vida espiritual.
A santificação é um processo. Há pecados e hábitos que podem envolver luta intensa. Quem esteve preso à pornografia, por exemplo, pode enfrentar tentações e recaídas. Isso não transforma o pecado em algo aceitável, nem autoriza a desistência.
Há diferença entre lutar contra um pecado e fazer paz com ele. O cristão pode cair, mas é chamado ao arrependimento e a continuar combatendo. A presença de fraqueza não muda a vontade de Deus; ela mostra quanto dependemos de sua graça.
1 Tessalonicenses 4 termina com esperança justamente nesse ponto. Aquele que nos chama à santificação é o Deus “que nos deu também o seu Espírito Santo” (1 Tessalonicenses 4:8).
A exigência de santidade não é colocada diante do cristão como se ele tivesse de produzir sozinho aquilo que Deus exige. O Espírito Santo habita no povo de Deus e opera numa vida que aprende a obedecer.
Sem santificação ninguém verá o Senhor
Hebreus traz a advertência que impede qualquer tentativa de transformar santidade em assunto secundário: “Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12:14).
Esse texto não ensina que acumulamos santidade suficiente para merecer a presença de Deus. A salvação permanece obra da graça. Mas a mesma graça que perdoa não deixa o pecador intocado. Deus chama, perdoa, recebe e começa uma obra de transformação.
Onde não existe desejo de abandonar o pecado, arrependimento, luta, mudança ou disposição de obedecer a Cristo, a profissão de fé precisa ser examinada com seriedade. A santificação não é a causa da justificação, mas é fruto necessário da vida que Deus concede.
O exame, então, não deve ser: “Já sou perfeito?”
Pergunte se existem sinais de uma nova direção. Seu corpo está sendo submetido à vontade de Deus? Você está aprendendo a perdoar? Há menos espaço para arrogância e mais para misericórdia? A Palavra de Cristo está governando suas decisões? Há pecados que antes eram defendidos e agora são confessados e combatidos?
Santidade não é um troféu religioso para quem chegou mais longe que os outros. É a vida daquele que pertence a Deus sendo, pouco a pouco, conformada à vontade de Deus.
E quando a luta parecer maior do que suas forças, volte ao ponto em que Paulo termina: o Deus que chama para a santificação também deu ao seu povo o Espírito Santo.
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