Muitas orações cristãs terminam com as palavras “em nome de Jesus”. A expressão é bíblica, mas pode se tornar tão habitual que quase perde o peso. Às vezes é tratada como a fórmula que transforma um pedido em oração válida; em outras, como se pronunciar o nome de Jesus obrigasse Deus a conceder aquilo que foi solicitado.

O Novo Testamento conduz para outra direção. Orar em nome de Jesus não é confiar nas sílabas do nome, mas na pessoa que esse nome identifica. É aproximar-se do Pai por causa de quem Cristo é, do que ele realizou e da posição que ocupa diante de Deus. A chave da oração, portanto, não é uma frase acrescentada no final. É o próprio Jesus Cristo, o Filho de Deus, nosso grande Sumo Sacerdote e único Mediador.

Antes de entender a oração, precisamos entender quem é Jesus

O Evangelho de Marcos abre com uma afirmação direta: Jesus Cristo é o Filho de Deus (Marcos 1.1). Poucos versículos depois, essa identidade aparece acompanhada de autoridade. Em Cafarnaum, os ouvintes se maravilham porque Jesus ensina “como tendo autoridade, e não como os escribas” (Marcos 1.22). Quando um espírito imundo se manifesta, Jesus não recorre a rito, objeto ou fórmula. Ele ordena, e o espírito obedece (Marcos 1.23-27).

Esse detalhe importa para o tema da oração. A autoridade não está em alguém conseguir pronunciar corretamente o nome de Jesus. A autoridade pertence a Jesus.

Hebreus apresenta a mesma verdade por outro ângulo. O Filho é aquele por quem Deus fez o mundo, aquele que sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder, aquele que fez a purificação dos pecados e se assentou à destra da majestade nas alturas. Por isso o texto afirma que ele “herdou mais excelente nome” do que os anjos (Hebreus 1.1-4).

Paulo também declara que Deus exaltou Cristo soberanamente e lhe deu “um nome que é sobre todo o nome” (Filipenses 2.9-11). Quando o cristão ora em nome de Jesus, não está acionando uma palavra religiosa. Confessa que se aproxima em nome do Filho exaltado.

O nome de Jesus é decisivo porque somente ele nos leva ao Pai

A oração cristã não começa com a capacidade humana de alcançar Deus. Começa com Deus abrindo o caminho por meio de Cristo.

Hebreus chama Jesus de “grande sumo sacerdote” e, em seguida, conclui: “Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hebreus 4.14-16).

A confiança não nasce da ideia de que o cristão se tornou digno por si mesmo. O próprio argumento de Hebreus aponta para o sacerdócio de Cristo. Ele permanece eternamente e “pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hebreus 7.24-25).

Mais adiante, o autor liga de modo explícito o acesso a Deus ao sacrifício de Jesus. Temos ousadia para entrar no santuário “pelo sangue de Jesus” e somos chamados a nos achegar com verdadeiro coração e inteira certeza de fé (Hebreus 10.19-22).

Aqui está o fundamento da expressão “em nome de Jesus”. O pecador não se apresenta diante do Pai carregando o próprio currículo espiritual. Não diz, em essência: “ouve-me porque fui bom o bastante, orei com intensidade suficiente ou mereço esta resposta”. Ele vem por Cristo. Sua confiança está na obra do Filho, não no mérito do suplicante.

É por isso que Paulo afirma: “há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1 Timóteo 2.5). Se há um único Mediador, então a aproximação cristã de Deus não repousa em outro nome, outro mérito ou outro intermediário.

O que Jesus quis dizer com “pedirdes em meu nome”?

A promessa aparece com força no discurso de despedida de Jesus aos discípulos. Em João 14, quando prepara os seus para a sua partida e fala de sua ida ao Pai, Cristo declara:

“E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.” (João 14.13-14)

A frase não deve ser arrancada do contexto. No mesmo capítulo, Jesus fala de fé nele, de sua relação com o Pai, da guarda de seus mandamentos e da vinda do Consolador. O objetivo da resposta à oração também é declarado: “para que o Pai seja glorificado no Filho”.

João 15 torna o quadro ainda mais claro. Jesus diz: “Se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito” (João 15.7). A promessa não descreve alguém independente de Cristo usando seu nome para legitimar qualquer desejo. Ela descreve discípulos que permanecem nele e cuja vida está sendo formada por sua palavra.

Em João 16, Jesus volta a ensinar que os discípulos pedirão ao Pai em seu nome, no contexto de sua ida ao Pai e da fé dos discípulos (João 16.23-27).

Orar em nome de Jesus, então, significa pedir como alguém que depende dele, pertence a ele e deseja que a resposta honre aquilo que ele é. A expressão aponta para relação, mediação e submissão; não para uma técnica de resultados.

O nome de Jesus não funciona como uma fórmula espiritual

Atos 19 oferece uma advertência difícil de ignorar. Alguns exorcistas judeus tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre pessoas dominadas por espíritos malignos. A fórmula deles era: “Esconjuro-vos por Jesus a quem Paulo prega” (Atos 19.13). Eles conheciam o nome, mas não conheciam Cristo como os apóstolos o conheciam.

A resposta do espírito maligno expôs o problema: “Conheço a Jesus, e bem sei quem é Paulo; mas vós quem sois?” (Atos 19.15). A tentativa terminou em humilhação, e o episódio fez com que o nome do Senhor Jesus fosse engrandecido, não banalizado (Atos 19.16-17).

O contraste com Marcos 1 é significativo. Jesus não precisa invocar uma autoridade superior para expulsar o espírito imundo. Ele fala com autoridade própria. Já em Atos 19, homens tentam apropriar-se do nome de Jesus sem verdadeira relação com ele e descobrem que o nome do Senhor não pode ser manipulado.

Isso corrige uma superstição que pode entrar silenciosamente na prática cristã. Acrescentar “em nome de Jesus” a um pedido não transforma automaticamente esse pedido em vontade de Deus. O nome de Cristo não foi dado à igreja como amuleto verbal, senha espiritual ou mecanismo de coerção.

Orar em nome de Jesus não significa receber tudo o que desejamos

Se João 14.13-14 fosse lido isoladamente, alguém poderia imaginar que qualquer pedido seguido da expressão correta deveria ser atendido exatamente como foi formulado. O próprio Evangelho de João impede essa leitura.

Jesus liga a oração à permanência nele e à permanência de suas palavras no discípulo (João 15.7). Liga a resposta à produção de fruto (João 15.16). E declara que o propósito é a glória do Pai no Filho (João 14.13).

A primeira carta de João formula o princípio de maneira explícita: “esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve” (1 João 5.14).

Submissão à vontade de Deus não esvazia a confiança na oração. Ela purifica essa confiança. O cristão pode pedir com ousadia porque Cristo abriu o caminho; ao mesmo tempo, não transforma sua vontade particular na medida da fidelidade divina. A fé não exige que Deus assine nossos planos. A fé se apoia no caráter de Deus quando a resposta vem como pedimos, quando vem de outra maneira e quando exige espera.

Orar em nome de Jesus é incompatível com tentar usar Jesus para colocar Deus a serviço dos nossos desejos. É pedir debaixo do senhorio daquele cujo nome confessamos.

O que muda na prática quando oramos em nome de Jesus?

Muda, primeiro, o fundamento da nossa confiança. Há dias em que a oração parece forte e há dias em que mal conseguimos organizar as palavras. Se a aceitação diante de Deus dependesse da qualidade da nossa oração, viveríamos oscilando entre orgulho e desespero. Mas o acesso está em Cristo.

Muda também a direção dos pedidos. A pergunta deixa de ser apenas “o que eu quero que Deus faça?” e passa a incluir: “isso está de acordo com a palavra de Cristo? Isso honra o Pai? Posso pedir isso reconhecendo sinceramente o senhorio de Jesus?”

Muda ainda a maneira de lidar com a fraqueza. Cristo continua vivo para interceder pelos que por ele se chegam a Deus (Hebreus 7.25). A segurança do crente não repousa numa oração perfeita, mas num Intercessor perfeito.

Por isso, o cristão pode chegar ao trono da graça quando está cansado, arrependido, confuso ou aflito. Ele não precisa fingir força diante de Deus. Precisa chegar por aquele que já fez a purificação dos pecados e permanece diante do Pai.

“Em nome de Jesus” é uma confissão, não uma senha

Não há problema algum em terminar a oração dizendo “em nome de Jesus”. É uma forma bela e bíblica de confessar de quem dependemos. O perigo começa quando a frase permanece nos lábios, mas seu significado desaparece do coração.

Dizer “em nome de Jesus” deve nos lembrar que não chegamos ao Pai em nosso próprio nome. Deve nos lembrar do Filho de Deus que possui autoridade, do Sumo Sacerdote que abriu o acesso, do sacrifício que purificou pecados, do Rei exaltado cujo nome está acima de todo nome e do Intercessor que vive para sempre.

Por isso o nome de Jesus é a chave da oração: não porque pronunciá-lo tenha poder mágico, mas porque Jesus é o único Mediador por quem nos chegamos a Deus. A oração cristã encontra sua confiança, seu limite e sua esperança nele.

Quando você disser outra vez “em nome de Jesus, amém”, não trate essas palavras como simples encerramento. Confesse com elas: eu venho ao Pai por Cristo, descanso na obra de Cristo, submeto meu pedido ao senhorio de Cristo e desejo que o Pai seja glorificado no Filho.

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