Há versículos que parecem prontos para assustar quem os lê sozinho. O Salmo 69:28 é um deles: “Sejam riscados do livro dos vivos, e não sejam inscritos com os justos.” Se um nome pode ser riscado do livro, quem foi salvo pode perder a salvação?
A pergunta não é teórica. Ela visita o quarto de quem acorda de madrugada com medo de já ter pecado demais e a mente de quem cresceu ouvindo que a salvação se segura com as próprias mãos.
Este artigo responde por etapas: primeiro, o que o salmo pede de fato; depois, com justiça, a leitura de quem entende que a salvação pode ser perdida; por fim, o que a Escritura diz sobre o livro da vida e a promessa de Cristo às suas ovelhas. A conclusão pode ser adiantada: Salmo 69:28 não descreve um salvo sendo apagado, e o Novo Testamento ensina que aquele a quem Cristo salvou ele também guarda até o fim.
O que o Salmo 69:28 está de fato pedindo
Para entender o versículo, é preciso lê-lo dentro do salmo inteiro. O Salmo sessenta e nove é o clamor de um homem afundado: “LIVRA-ME, ó Deus, pois as águas entraram até à minha alma.” Ele se descreve atolado num lamaçal, cansado de clamar, odiado sem causa por inimigos mais numerosos que os cabelos da sua cabeça. Sofre por causa da sua fidelidade a Deus, e é isso que dá ao salmo o seu tom.
Do meio dessa aflição nasce a oração que pede justiça contra os perseguidores. É aí que entra o versículo vinte e oito, com o pedido de que os inimigos sejam riscados do livro dos vivos. A Almeida Corrigida Fiel registra aqui “livro dos vivos”, e essa diferença importa: é o registro dos que estão vivos e contados entre o povo. O salmista não fala de perder uma salvação já recebida; pede que os que persistem na maldade não fiquem de pé ao lado dos justos como se fossem um deles.
O versículo vinte e sete mostra que o pedido é que esses inimigos não entrem na justiça de Deus. E o próprio salmista, no vinte e nove, se põe humilde: “Eu, porém, sou pobre e estou triste; ponha-me a tua salvação, ó Deus, num alto retiro.” Para si, pede a salvação de Deus; para os inimigos, que a justiça os alcance.
Esse salmo fala de alguém maior que o salmista: “O zelo da tua casa me devorou”, do versículo nove, foi lembrado pelos discípulos quando Jesus purificou o templo, como registra João, capítulo dois. É, antes de tudo, a oração do Justo que sofre e que em Cristo se cumpre por inteiro.
A leitura de quem entende que a salvação pode ser perdida
A outra leitura não nasce de má-fé. Há cristãos sinceros que olham para Salmo 69:28, para o que Deus diz a Moisés em Êxodo, capítulo trinta e dois, versículo trinta e três — “Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” — e para Apocalipse, capítulo três, versículo cinco, e concluem: se existe risco de ser riscado, a salvação pode ser perdida.
O raciocínio deles merece ser ouvido. Se o aviso fosse vazio, Deus estaria ameaçando com algo que nunca acontece; logo, o aviso precisa valer como possibilidade real. Eles lembram também as exortações que mandam perseverar, argumentando que só se manda guardar aquilo que se pode perder.
Essa posição tem um mérito que não se pode esconder: leva o pecado a sério e recusa transformar a graça em licença. Quem a sustenta quer que o crente vigie e não brinque com o pecado. O erro não está nesse zelo, mas na conclusão que se tira do texto — e é isso que a Escritura precisa corrigir.
O que a Bíblia chama de livro da vida
A expressão “livro da vida” não significa sempre a mesma coisa, e essa distinção resolve boa parte do problema. No Antigo Testamento, o livro é, muitas vezes, o registro dos vivos, a lista dos que estão de pé entre o povo de Deus. Quando Moisés intercede pelo povo depois do bezerro de ouro, ele diz: “Agora, pois, perdoa o seu pecado; se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito.” E Deus responde: “Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro.”
Note o que está em jogo. Ser riscado do livro é ser cortado da vida e da comunhão do povo. Deus responde que é o pecador que se rebela e permanece quem fica de fora. Em lugar nenhum o texto diz que alguém já justificado, já perdoado, é depois apagado.
No Novo Testamento, a imagem amadurece: o livro passa a ser o “livro da vida do Cordeiro”, como aparece em Apocalipse, capítulo vinte e um, versículo vinte e sete. E o capítulo dezessete, versículo oito, é claro sobre a origem da inscrição: os nomes dos que se perdem “não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo.” O nome dos salvos não foi inscrito depois de uma decisão que poderia ser desfeita; foi escrito desde a fundação do mundo.
Essa é a virada decisiva. Em Apocalipse, capítulo três, versículo cinco, Jesus não ameaça o crente quando diz que “de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida”; garante o contrário. E quem é o que vence? Primeira João, capítulo cinco, responde: “Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” O vencedor não é o forte; é o que crê.
A segurança do salvo nas palavras de Cristo
Bastaria ouvir o próprio Jesus. Em João, capítulo dez, ele fecha a descrição das suas ovelhas com uma promessa sem meio-termo: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai.”
Observe a sequência. Cristo não diz que as ovelhas se seguram sozinhas. Ele as conhece, dá-lhes a vida eterna e afirma que ninguém — nem os inimigos, nem o diabo, nem a fraqueza da ovelha — consegue arrancá-las da sua mão. E acrescenta a mão do Pai: duas mãos, e as duas seguram. Uma vida que pode ser perdida amanhã não é vida eterna; a duração dela está sustentada na fidelidade de Cristo, não no desempenho de ninguém.
Os apóstolos disseram o mesmo. Paulo escreveu: “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo.” Aos efésios, explicou que o crente, depois de crer, “fostes selados com o Espírito Santo da promessa”, o penhor da herança, a garantia antecipada dela. E Hebreus resume: Cristo “pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.”
E talvez a passagem que mais consola esteja em Romanos, capítulo oito: “Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.” Nada criado separa o salvo do amor de Deus. Nem o seu pior dia. Nem a sua recaída mais vergonhosa. Nem a acusação que volta à noite.
Para quem servem, então, os avisos de ser riscado?
Se a Escritura é clara sobre a segurança do salvo, por que Deus fala em riscar nomes? A resposta está na diferença entre estar no livro por fora e estar escrito nele por dentro. Nem todo mundo que anda entre o povo de Deus pertence de verdade a ele. Jesus avisou que muitos diriam “Senhor, Senhor” e ouviriam: “Nunca vos conheci.” João explica em Primeira João, capítulo dois, versículo dezenove: “Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco.”
É para essas pessoas que o aviso existe. Quem confia numa profissão de fé vazia, numa aparência de religião, mas nunca se rendeu a Cristo, precisa saber que há um juízo, e que estar perto do povo não é o mesmo que estar escrito no livro. O aviso não ameaça o salvo; desmascara o que se engana a si mesmo. Por isso o salvo também o lê com proveito: ele o chama a examinar se a fé é real, não a duvidar de que Cristo guarda os seus.
Isso muda a leitura do Salmo 69:28. O versículo não é doutrina sobre perder a salvação; é oração para que os ímpios não sejam contados com os justos. No dia final, como descreve Apocalipse, capítulo vinte, versículo quinze, “aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo”, enquanto na cidade santa entram “só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro.” A pergunta que o texto põe diante de você não é se o salvo pode cair das mãos de Cristo; é se o seu nome está escrito, de verdade, no livro.
Conclusão
Salmo 69:28 foi mal usado quando serviu para ensinar que Cristo salva hoje e perde amanhã. O texto é a oração de um justo perseguido que entrega os ímpios à justiça de Deus e pede para si a salvação que só Deus dá. O livro dos vivos, no Antigo Testamento, registra os que estão de pé entre o povo; o livro da vida do Cordeiro, no Novo, guarda nomes escritos desde a fundação do mundo — e sobre eles Jesus fez uma promessa que ele mesmo sustenta: “nunca hão de perecer”.
Mas o salmo não deixa ninguém confortável no engano. Se você vive longe de Deus, confiando na sua moralidade ou na sua frequência à igreja, o aviso continua de pé: quem pratica a iniqüidade não entra na justiça de Deus. A diferença entre o justo e o ímpio não é que o justo nunca pecou; é que o justo confessou o seu pecado e se agarrou a Cristo, enquanto o ímpio ainda confia em si mesmo.
E se você é de Cristo, pode descansar no lugar certo: não na sua firmeza, que falha, mas na dele, que não falha. Quando a acusação voltar à noite dizendo que você já caiu demais para ser salvo, responda com a Palavra: “ninguém as arrebatará da minha mão.” O que segura a sua salvação não é a força da sua mão que se agarra a Deus. É a mão de Deus que se agarra a você.
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