Vale a pena permanecer fiel quando a desonestidade parece dar resultado? Se você arca com o custo de agir corretamente enquanto alguém ganha dinheiro explorando outros, a pergunta pode abalar sua confiança em Deus. Asafe conheceu essa crise: a prosperidade que observava quase o levou a concluir que a pureza de sua vida tinha sido inútil.
O Salmo 73 acompanha a correção dessa dúvida. A bondade de Deus não pode ser medida pelo saldo de cada pessoa. Diante dele, o salmista reconhece a fragilidade da segurança que invejava e o cuidado que já recebia. Sua confiança amadurece sem negar o sofrimento: ele aprende a atravessar a própria fraqueza.
Quando o êxito dos outros se torna medida da fé
Asafe começa afirmando a bondade de Deus e logo admite como esteve perto de perder o equilíbrio. Quem agora testemunha essa bondade conhece o perigo de interpretá-la a partir da comparação.
“VERDADEIRAMENTE bom é Deus para com Israel, para com os limpos de coração. Quanto a mim, os meus pés quase que se desviaram; pouco faltou para que escorregassem os meus passos. Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios.” (Salmo 73.1-3, ACF)
Nos versículos seguintes, ele descreve pessoas que parecem livres das aflições comuns e acumulam riquezas. O retrato também inclui violência, opressão e arrogância contra Deus. Sua impiedade é identificada por essas atitudes. Possuir dinheiro, por si só, não constitui a acusação, e a passagem não afirma que todos os que não creem enriquecem ou desconhecem o sofrimento.
A prosperidade observada adquire um peso indevido na avaliação de Asafe. Enquanto olha para a aparente tranquilidade dos outros, ele sente o peso de sua própria aflição. A comparação acaba produzindo uma conclusão sobre o valor de servir a Deus:
“Na verdade que em vão tenho purificado o meu coração; e lavei as minhas mãos na inocência. Pois todo o dia tenho sido afligido, e castigado cada manhã.” (Salmo 73.13-14, ACF)
Essa é a voz da crise, cuja conclusão será corrigida ao longo do salmo. Asafe associa a pureza à expectativa de uma vida menos dolorosa; diante da aflição, passa a considerar perdido o esforço de permanecer fiel. O erro está em fazer da vantagem presente o critério decisivo para avaliar sua relação com Deus.
Uma dúvida que alcança a comunidade
Antes da mudança de perspectiva, o salmista considera o efeito de sua conclusão sobre a comunidade. Anunciar a inutilidade da fidelidade poderia ferir aqueles que o ouvissem. A dor de compreender permanece:
“Se eu dissesse: Falarei assim; eis que ofenderia a geração de teus filhos. Quando pensava em entender isto, foi para mim muito doloroso; Até que entrei no santuário de Deus; então entendi eu o fim deles.” (Salmo 73.15-17, ACF)
O cuidado do versículo quinze não impõe silêncio a quem precisa de ajuda. Admitir que você não entende o que acontece pode abrir espaço para amparo. Ensinar que servir a Deus é inútil espalha como verdade uma avaliação que o salmo irá desfazer. Você pode levar perguntas sinceras à comunidade sem disfarçar sua fragilidade.
A entrada no santuário marca a virada. Asafe se encontra diante de Deus no lugar de culto e passa a compreender o fim daqueles que invejava. O salmo não descreve uma visão, um sermão específico ou uma técnica que ele tenha seguido. Tampouco diz que sua situação financeira melhorou ali. A mudança expressa no versículo é de entendimento: o presente passa a ser avaliado em relação ao seu desfecho.
“Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os lanças em destruição.” (Salmo 73.18, ACF)
Os pés de Asafe quase tinham escorregado; agora ele percebe que aqueles cuja vida parecia tão segura estão em lugares escorregadios. A prosperidade não os protege do juízo nem torna sensato viver afastado de Deus. Ao reconhecer isso, ele também admite a amargura e a falta de entendimento de seu próprio coração.
Essa conclusão não entrega a você um prazo para a ruína de alguém. Também não permite deduzir o destino final de um vizinho a partir de sua riqueza ou desejar sua destruição para sentir-se compensado. O salmo afirma a justiça de Deus sem explicar a causa particular de cada êxito e de cada dor. Seu alcance é corrigir a falsa segurança que a prosperidade despertou, não oferecer um calendário de punições que possamos aplicar aos outros.
A mão que sustentava Asafe
Após admitir seu engano, Asafe reconhece o que a inveja havia obscurecido: ele continuava com Deus e era sustentado por ele. O retorno à confiança inclui reconhecer um cuidado recebido, sem atribuir a recuperação somente a si mesmo.
“Todavia estou de contínuo contigo; tu me sustentaste pela minha mão direita. Guiar-me-ás com o teu conselho, e depois me receberás na glória.” (Salmo 73.23-24, ACF)
O “Todavia” liga essa confissão ao reconhecimento da amargura e da falta de entendimento. Asafe não apresenta uma fé sem luta como condição para ser amparado. A mão que o sustenta pertence a Deus. Isso impede reduzir a recuperação a uma ordem para controlar o olhar ou produzir confiança pela força da vontade. Seu reconhecimento do erro vem acompanhado da confissão de que Deus não o deixou entregue a si mesmo.
O conselho de Deus também tem lugar nessa relação. Ser sustentado não torna desnecessário aprender ou rever conclusões. Asafe espera ser guiado e recebido na glória; sua esperança ultrapassa a condição presente e repousa naquele com quem permanece. O versículo não detalha todas as circunstâncias dessa glória. No conjunto do salmo, ele expressa confiança em um acolhimento que a vantagem material não pode assegurar.
Se você está cansado de tentar manter a própria fé sem contar a ninguém o que o inquieta, esse reconhecimento oferece consolo. A crise pode ser admitida diante de Deus, com disposição para receber seu conselho. Pedir ajuda a alguém maduro na comunidade é uma aplicação coerente desse movimento, sem fazer de uma conversa a garantia de que toda pergunta será resolvida imediatamente.
Deus como porção em meio à fraqueza
A mudança alcança aquilo que o salmista deseja: ele confessa que a comunhão com Deus é seu bem permanente. Essa declaração precisa ser ouvida junto à fraqueza que continua a admitir.
“Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti. A minha carne e o meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre.” (Salmo 73.25-26, ACF)
Chamar Deus de sua porção é reconhecer nele o bem que permanece e sustenta sua esperança. A comunhão com Deus deixa de ser avaliada apenas pelo que poderia render. Asafe encontra valor em estar com o próprio Deus. Sua afirmação não exige que deixe de amar a família, desejar auxílio ou trabalhar para melhorar a vida. Ela estabelece qual bem possui a primazia quando os demais se mostram frágeis.
A carne e o coração desfalecem na mesma passagem em que Deus é confessado como fortaleza. A suficiência divina, portanto, não significa ausência de dor ou capacidade humana ilimitada. Quem confia em Deus ainda pode precisar de alimento, trabalho e cuidado. Dizer a uma pessoa aflita que suas necessidades deixaram de importar porque ela tem Deus apaga a fraqueza que o salmo reconhece.
Talvez sua pergunta seja se é errado desejar que uma dificuldade material termine. O salmo não chama a pobreza de mérito nem exige que você se conforme com a opressão. Ele corrige a inveja que toma a vida de quem despreza Deus como modelo desejável. É possível procurar ajuda e agir para enfrentar uma injustiça sem concluir que a comunhão com Deus só terá valor depois de uma melhora financeira.
Ao considerar boa a proximidade de Deus, Asafe retoma a confissão do início. Ele pode testemunhar o cuidado recebido mesmo depois de admitir sua quase queda.
Quando a comparação voltar
Se a prosperidade de alguém voltar a despertar a sensação de que sua fidelidade não valeu a pena, você pode reconhecer o que está acontecendo sem se condenar por ter uma pergunta. Leve a Deus tanto a necessidade concreta quanto a inveja. Procure ajuda para enfrentar a primeira e correção para a conclusão de que obedecer foi inútil. A dificuldade não precisa ser escondida para que você se aproxime dele.
“Mas para mim, bom é aproximar-me de Deus; pus a minha confiança no Senhor DEUS, para anunciar todas as tuas obras.” (Salmo 73.28, ACF)
Você não precisa saber quando a injustiça será julgada para contar o cuidado que recebeu enquanto sofria. Essa confiança permite buscar o pão de amanhã sem fazer dele a prova definitiva da bondade de Deus. Quando suas forças não bastarem, a mão que sustenta Asafe continua sendo o fundamento do consolo: a segurança de estar com Deus permanece maior que a vantagem que você invejou.


0 comentários