Se Cristo governa, por que aqueles que praticam o mal continuam vivendo ao lado dos que procuram obedecer a ele? A pergunta se torna dolorosa quando você presencia uma injustiça e o responsável parece seguir sem consequência. Na parábola do joio e do trigo, Jesus fala dessa convivência e da vontade de encerrá-la imediatamente. O dono conhece o que aconteceu no campo, determina uma espera e promete uma colheita.
Esperar exige confiança no cuidado e na justiça do Senhor. Isso não obriga você a chamar o pecado de bem ou a abandonar quem sofre. Jesus reserva para si a separação final e ensina seus discípulos a respeitar esse limite. A paciência presente tem um fim: o Filho do homem julgará os que praticam a iniquidade e acolherá os justos no reino de seu Pai.
O campo na parábola do joio e do trigo
Um homem semeia boa semente em seu campo. Enquanto os homens dormem, um inimigo semeia joio entre o trigo e vai embora. Quando a plantação cresce, o joio aparece. Os servos perguntam como aquilo aconteceu, já que a semente do dono era boa. Ele atribui a ação a um inimigo.
Jesus ensina a multidão sobre o reino dos céus. Depois, em casa, explica a parábola aos discípulos. Sua resposta define os participantes e o significado da colheita:
“E ele, respondendo, disse-lhes: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem; O campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno; O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos.” (Mateus 13.37-39, ACF)
Na parábola do joio e do trigo, a boa semente representa pessoas que pertencem ao reino. O joio também representa pessoas, chamadas filhos do maligno. Jesus fala de uma oposição ao seu governo, com responsabilidade e consequências. A história não trata apenas de ideias abstratas de bem e mal.
O campo é o mundo. A igreja recebe esse ensino e vive dentro desse mundo, mas não deve substituir a explicação de Jesus por uma aplicação restrita à sua própria organização. A presença do reino no tempo atual não significa que todos os que praticam o mal já tenham desaparecido da sociedade.
O dono continua sendo dono do campo. A semeadura do inimigo não lhe entrega a decisão sobre o destino da plantação. A narrativa distingue a ação do inimigo do trabalho do semeador. Quando o mal parece dominar o que você enxerga, não conclua depressa que Cristo abandonou seu povo.
A espera protege o trigo
Ao reconhecer o joio, os servos oferecem uma solução: arrancá-lo. O dono recusa a proposta e apresenta sua razão:
“Ele, porém, lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro.” (Mateus 13.29-30, ACF)
O risco de ferir o trigo explica a ordem de esperar. Os servos já perceberam a presença do joio; a história não os repreende por reconhecer um problema. O limite recai sobre a ação que propõem. Sua vontade de limpar o campo imediatamente precisa se submeter ao cuidado e à decisão de quem o possui.
O cuidado do dono inclui o que os servos, apressados em resolver o problema, correm o risco de destruir. Uma intenção de combater o mal não torna qualquer método justo.
A espera tem prazo: até a ceifa, isto é, a colheita. O dono determina a separação e o destino de cada parte da plantação. Ele conhece o joio e não pretende deixá-lo indefinidamente no campo.
A parábola não explica cada injustiça particular ou todos os motivos do tempo de Deus. Ela mostra algo que sustenta a confiança: o Senhor cuida do trigo enquanto estabelece a hora da colheita. Você pode reconhecer a dor da espera sem transformar sua impaciência em autorização para ocupar o lugar do Juiz.
Corrigir o pecado não é realizar a colheita
Seria errado usar a ordem de esperar para impedir toda correção. O próprio Jesus, no mesmo Evangelho, ensina como lidar com o pecado de um irmão:
“Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão;” (Mateus 18.15, ACF)
O objetivo declarado é ganhar o irmão. A passagem prossegue orientando a presença de testemunhas e, se necessário, a participação da igreja. Há responsabilidade de ouvir, verificar e corrigir. A comunhão cristã não exige silêncio diante da desobediência.
Em Primeira Coríntios, capítulo cinco, Paulo distingue os de dentro da comunidade dos de fora, ao tratar de pecado público. A igreja vive no mundo, mas precisa lidar com quem se apresenta como irmão e persiste no pecado. A parábola não cancela essa responsabilidade.
Discernir uma conduta e buscar a recuperação de alguém não equivale a executar o juízo final. A disciplina busca corrigir o erro e proteger a comunidade. A colheita é a separação definitiva que Jesus realizará por meio dos seus anjos.
Se você presencia alguém sendo ferido, a paciência não manda encobrir o dano. Buscar correção e proteção é compatível com confiar a justiça final a Cristo. A parábola limita a pressa destrutiva dos servos. Não concede licença para justificar vingança ou violência contra pessoas classificadas como joio.
O tempo recebido pede arrependimento
Na história do campo, a razão expressa da espera é poupar o trigo. Outras passagens ajudam a compreender como a paciência de Deus também se relaciona com o arrependimento. Pedro responde aos que tratavam a aparente demora da promessa como motivo de descrença:
“O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se.” (2 Pedro 3.9, ACF)
Longânimo significa paciente. Pedro dirige essa palavra aos seus leitores e os inclui na expressão para conosco. No mesmo contexto, afirma que o dia do Senhor virá e pergunta como devem viver aqueles que o aguardam. Sua resposta une esperança, arrependimento e uma vida de obediência a Deus.
Esse ensino amplia o tema da paciência sem mudar a parábola. Jesus não diz que o joio se transforma em trigo, nem apresenta essa possibilidade como motivo da espera. Pedro, em sua carta, relaciona explicitamente paciência e arrependimento.
Em Romanos, capítulo dois, Paulo adverte quem condena o outro e pratica o mesmo pecado. A bondade de Deus deve conduzir essa pessoa ao arrependimento. Persistir de coração endurecido acumula ira para o dia do juízo. O tempo concedido não aprova o mal.
Antes de pensar apenas no destino dos outros, que resposta você tem dado à paciência recebida? Há pecado que procura justificar porque ainda não sofreu suas consequências? Abandone essa desculpa e volte-se para Cristo. A certeza da colheita dá seriedade à oportunidade presente. A espera não promete oportunidades sem fim.
O Filho do homem fará a separação
Ao explicar o desfecho, Jesus identifica a colheita com a consumação deste mundo. O Filho do homem enviará os anjos, e a justiça que hoje se aguarda será realizada:
“Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniqüidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” (Mateus 13.40-43, ACF)
Jesus descreve um juízo real sobre os que praticam a iniquidade, com sofrimento e perda. A injustiça não ficará para sempre sem resposta. A promessa aos justos completa o cuidado com o trigo: aqueles que pertencem ao reino serão acolhidos no reino de seu Pai.
A ordem de recolher o joio e guardar o trigo anuncia a separação final, sem fornecer um calendário de todos os acontecimentos futuros. A esperança se firma na autoridade do Filho do homem para realizar o que anunciou.
Se você pertence a Cristo, o mal que o cerca não decide seu destino. O Senhor não perde de vista seu povo durante a espera. Essa esperança também permite abrir mão da vingança sem fingir que a injustiça foi pequena. Você pode buscar a correção do que está errado e entregar a Deus o julgamento que ultrapassa sua responsabilidade.
A parábola do joio e do trigo termina pedindo que você ouça. Antes de usá-la para classificar pessoas, receba sua advertência sobre o próprio caminho. Se tem protegido um pecado, responda com arrependimento. Se está cansado de esperar por justiça, leve essa dor ao Senhor e procure o apoio necessário para enfrentar o mal com responsabilidade. A colheita pertence ao Filho do homem. Hoje, confiar nele inclui respeitar seu tempo e obedecer à sua voz.


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