Jesus deu autoridade para perdoar pecados? A pergunta nasce das palavras dirigidas aos discípulos em João 20.23. Depois de ressuscitar, Cristo afirma que os pecados daqueles a quem perdoarem serão perdoados, e os daqueles a quem retiverem permanecerão retidos. Isso significa que uma pessoa pode decidir quem recebe o perdão de Deus? Ou Jesus confiou à sua Igreja uma autoridade real, subordinada à sua Palavra?
Jesus concede autoridade; negar isso enfraqueceria o texto. Entretanto, ele não entrega aos discípulos o direito de modificar a vontade divina. O contexto revela uma missão: anunciar o perdão conquistado por Cristo, chamar pecadores ao arrependimento e tratar o pecado na comunidade cristã. A autoridade dos mensageiros importa porque procede daquele que os enviou.
O envio dos discípulos explica a autoridade recebida
Os discípulos estavam reunidos atrás de portas fechadas, com medo. João situa o encontro depois da ressurreição. Jesus aparece, anuncia paz e mostra as marcas de suas mãos e de seu lado. Só então os envia.
“Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco; assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhes são retidos.” (João 20.21-23, ACF)
Três elementos aparecem ligados: o envio por Jesus, a ação do Espírito e a autoridade referente aos pecados. Lido isoladamente, o versículo 23 poderia sugerir uma prerrogativa pessoal dos discípulos. A autoridade não pode ser separada de sua mensagem, nem exercida como se Cristo estivesse ausente.
Jesus não fala de um conselho sem consequência, mas de uma responsabilidade espiritual verdadeira. A questão é descobrir como ela funciona. A resposta precisa respeitar a iniciativa de Deus e a responsabilidade confiada à igreja.
O perdão tem sua origem em Deus, não no ministro
Antes de João 20, Jesus já havia perdoado os pecados de um paralítico. Os escribas reagiram com uma pergunta:
“Por que diz este assim blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão Deus?” (Marcos 2.7, ACF)
Embora viesse de opositores, a pergunta tocava na prerrogativa divina de remover a culpa. Jesus não voltou atrás. Curou o homem para mostrar que o Filho do Homem tem poder para perdoar pecados na terra (Marcos 2.8-12). Em João 20, por outro lado, ele se dirige a mensageiros. Receberam a tarefa de testemunhar a obra de Jesus. Paulo descreve a missão apostólica assim:
“E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação;” (2 Coríntios 5.18, ACF)
O próprio versículo distingue quem reconcilia e quem recebe o ministério de anunciar a reconciliação. No versículo 20, Paulo chama esses ministros de embaixadores da parte de Cristo: falam em nome de outro, não em lugar de sua autoridade suprema. Nenhum pastor pode inventar condições de salvação, prometer absolvição em troca de favores ou transformar uma preferência pessoal em sentença do céu.
Por que Jesus falou em perdoar e reter pecados?
Uma objeção precisa ser ouvida: Jesus disse “perdoardes”, e não simplesmente “anunciareis”. Há quem entenda essa formulação como autorização para um ministro pronunciar a absolvição em nome de Cristo, e a força do verbo impede que a objeção seja descartada sem exame. Seria inadequado responder apenas trocando suas palavras por outras mais convenientes.
Mas a interpretação também deve explicar o envio e o Espírito mencionados imediatamente antes, além da maneira como os apóstolos cumpriram sua missão. Lucas registra a orientação dada pelo Ressuscitado:
“E em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém.” (Lucas 24.47, ACF)
Em João, Jesus fala de perdoar e reter. Em Lucas, define o anúncio de arrependimento e remissão em seu nome. O Evangelho proclama uma promessa que deve ser recebida com fé; sua rejeição tem consequências. Assim, a mesma mensagem assegura perdão ao que crê em Cristo e adverte aquele que persiste na incredulidade.
Isso não transforma a igreja em dona do destino eterno das pessoas. Reter pecados não significa fechar definitivamente a porta ao pecador arrependido. Significa levar a sério a advertência divina dirigida a quem resiste ao Evangelho, sem oferecer uma falsa segurança onde não há arrependimento.
Talvez alguém tenha ouvido de uma autoridade religiosa que Deus o rejeitou para sempre. João 20 não autoriza o uso dessa ameaça como instrumento de controle.
A disciplina da igreja também envolve autoridade
Em Mateus 16.19, Jesus menciona as chaves do Reino. Já em Mateus 18.15-20, ensina como agir quando um irmão peca: começa pela correção pessoal, considera testemunhas e, se houver recusa persistente, envolve a igreja. Nesse contexto, afirma:
“Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.” (Mateus 18.18, ACF)
O contexto liga essa autoridade à responsabilidade da comunidade de tratar o pecado. A igreja deve exercer disciplina quando necessário, mas não pode chamar de pecado aquilo que Deus não condenou. Suas decisões precisam ser examinadas à luz da Escritura.
Há, portanto, uma aplicação legítima de João 20.23 à vida comunitária: reconhecer a gravidade da persistência no pecado e acolher o arrependimento. A autoridade da igreja é ministerial, limitada e responsável diante de Cristo.
Paulo mostra como a correção deve abrir caminho à restauração. Ao tratar de alguém que recebera repreensão em Corinto, escreve:
“De maneira que pelo contrário deveis antes perdoar-lhe e consolá-lo, para que o tal não seja de modo algum devorado de demasiada tristeza.” (2 Coríntios 2.7, ACF)
Uma comunidade que denuncia o pecado, mas recusa acolher quem se arrepende, perde de vista o objetivo pastoral da disciplina.
Como os apóstolos exerceram essa autoridade?
O livro de Atos oferece uma prova importante. No Pentecostes, Pedro anunciou Jesus crucificado e ressuscitado. Quando os ouvintes perguntaram o que fazer, respondeu com um chamado ao arrependimento e ao batismo em nome de Cristo para perdão dos pecados (Atos 2.36-38). Indicou o Senhor de quem havia recebido a mensagem.
Depois, Simão tentou obter com dinheiro um poder ligado à atuação do Espírito Santo. Pedro denunciou a gravidade do pecado e ordenou:
“Arrepende-te, pois, dessa tua iniqüidade, e ora a Deus, para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração;” (Atos 8.22, ACF)
Essa resposta é especialmente significativa. Pedro tinha recebido a comissão de João 20, mas mandou Simão buscar o perdão de Deus. Ele não ofereceu uma fórmula que substituísse a necessidade de arrependimento.
Na casa de Cornélio, Pedro anunciou a promessa de modo positivo:
“A este dão testemunho todos os profetas, de que todos os que nele crêem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome.” (Atos 10.43, ACF)
O perdão é recebido pelo nome de Jesus mediante a fé. Eis a dignidade e o limite do ministério: Deus usa vozes humanas para tornar conhecida uma salvação que pertence a Cristo. O apóstolo João também oferece orientação aos cristãos que reconhecem seus pecados:
“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça.” (1 João 1.9, ACF)
Nossa confiança repousa na fidelidade de Deus. Mas nenhum pastor ocupa o lugar do Salvador.
Quando a culpa pesa, a quem você deve recorrer?
Quando a lembrança de um pecado volta e produz vergonha, talvez você se pergunte se Deus ainda pode recebê-lo. A resposta não depende de encontrar uma pessoa capaz de mudar a vontade do céu. Você precisa voltar-se a Cristo com arrependimento e fé, confiando na promessa que ele mandou proclamar.
A igreja deve ensinar essa promessa, corrigir o pecado com justiça e acolher quem se arrepende. Se uma liderança usa a ameaça de reter pecados para exigir submissão pessoal, suas palavras precisam ser confrontadas com a Escritura.
O Ressuscitado enviou testemunhas de sua obra e confiou-lhes uma mensagem com consequências eternas. Por isso, quando a igreja anuncia fielmente o perdão em nome de Cristo, você pode receber essa notícia com confiança. A certeza final não repousa no ministro que fala, mas no Senhor que morreu, ressuscitou e tem poder para perdoar.


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