A questão do santuário celestial não é saber se Cristo ministra no céu. Hebreus afirma claramente que sim. O ponto de conflito é outro: a Escritura ensina que Jesus, depois da ascensão, iniciou apenas uma primeira fase de seu ministério e que, em 1844, entrou numa segunda e última fase expiatória, marcada pelo chamado juízo investigativo? Ou Hebreus apresenta Cristo como aquele que já entrou na presença de Deus, realizou eterna redenção e agora intercede com base numa obra plenamente suficiente?
O que a doutrina adventista realmente afirma
É importante representar a posição adventista com precisão. O adventismo contemporâneo reconhece a morte de Cristo como sacrifício expiatório oferecido de uma vez por todas. Ao mesmo tempo, ensina que o ministério celestial de Jesus possui fases distintas.
Segundo essa construção, na ascensão Cristo iniciou seu ministério sacerdotal no santuário celestial. Em 1844, ao fim do período profético associado às duas mil e trezentas tardes e manhãs de Daniel 8, ele teria entrado na segunda e última fase de seu ministério expiatório. Essa fase é identificada com o juízo investigativo, no qual se manifesta quem, entre os que professam fé, permanece em Cristo e está preparado para receber o reino.
A leitura também nasceu num contexto histórico definido. O movimento milerita esperou a volta de Cristo em 22 de outubro de 1844. Depois do chamado Grande Desapontamento, um pequeno grupo manteve a importância da data e reinterpretou o acontecimento: 1844 não marcaria a volta de Jesus à terra, mas uma mudança no seu ministério celestial. Dessa releitura se desenvolveu a doutrina do santuário e do juízo investigativo que depois se tornou distintiva do adventismo.
Portanto, a pergunta correta não é se a cruz realizou alguma coisa. A questão é se há fundamento bíblico para uma segunda fase expiatória iniciada em 1844 e se Hebreus permite separar por muitos séculos a ascensão de Cristo de sua plena entrada na presença de Deus.
Daniel 8 não descreve um juízo investigativo em 1844
Daniel 8:14 é o texto profético mais importante para essa construção: “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado.” A interpretação, porém, precisa começar no próprio capítulo.
Nos versículos anteriores, Daniel vê um poder que se engrandece, retira o sacrifício contínuo e profana o santuário. A pergunta do versículo 13 nasce desse cenário: “Até quando durará a visão do sacrifício contínuo, e da transgressão assoladora, para que sejam entregues o santuário e o exército, a fim de serem pisados?” A resposta vem no versículo seguinte.
O texto menciona profanação, sacrifício contínuo, santuário pisado e sua purificação. Não fala de uma mudança de compartimentos no céu, não descreve uma investigação dos nomes dos professos crentes e não identifica o ano de 1844. Para chegar a essa conclusão é necessário combinar Daniel 8 com uma cronologia profética, relacioná-lo a Daniel 9, aplicar o princípio dia-ano e depois interpretar a purificação do santuário como uma fase celestial do ministério de Cristo.
Hebreus mostra Cristo além do véu muito antes de 1844
A carta aos Hebreus trata diretamente do sacerdócio de Cristo e do santuário celestial. Por isso, ela deve controlar qualquer doutrina cristã sobre o assunto.
Hebreus 6:19-20 descreve a esperança cristã assim: “A qual temos como âncora da alma, segura e firme, e que penetra até ao interior do véu, onde Jesus, nosso precursor, entrou por nós, feito eternamente sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque.”
O próprio livro já explicou que depois do “segundo véu” estava o santo dos santos (Hebreus 9:3). Assim, quando afirma que Jesus entrou “até ao interior do véu”, o sentido natural dentro do argumento é acesso à presença de Deus.
O autor fala aos cristãos do primeiro século e apresenta essa entrada como realidade já consumada: “onde Jesus, nosso precursor, entrou por nós”. O texto não cria expectativa de que, muitos séculos depois, Cristo atravessaria finalmente o véu para iniciar uma etapa decisiva.
“Entrou uma vez” e “eterna redenção”
Hebreus 9 aprofunda o contraste entre os sacerdotes da antiga aliança e Cristo. O sistema levítico era repetitivo porque seus sacrifícios não podiam aperfeiçoar definitivamente a consciência. Cristo, porém, oferece o próprio sangue.
O versículo 12 declara: “Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção.”
As duas expressões precisam permanecer juntas: Cristo entra “uma vez” e essa entrada está ligada a uma “eterna redenção”. O texto não descreve uma redenção iniciada na cruz e dependente de uma nova etapa expiatória inaugurada séculos depois.
Isso não significa que Jesus deixou de exercer ministério no céu. Hebreus 7:25 afirma que ele vive “sempre para interceder” pelos que se chegam a Deus por ele. Intercessão contínua, porém, não é expiação sacrificial incompleta. Cristo intercede como aquele cujo sacrifício já foi oferecido.
Hebreus 9:24 reforça: “Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus”.
E a purificação das coisas celestiais?
Hebreus 9:23 afirma que as figuras das coisas celestiais eram purificadas com os sacrifícios antigos, “mas as próprias coisas celestiais com sacrifícios melhores do que estes”. À primeira vista, alguém poderia usar essa frase para defender uma purificação posterior do santuário celestial.
O próprio contexto, contudo, determina a direção do argumento. Logo depois, Hebreus diz que Cristo não entrou para oferecer a si mesmo muitas vezes. Se assim fosse, teria de padecer repetidamente. Em vez disso, “agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hebreus 9:26).
Seja qual for a extensão exata da linguagem de purificação em Hebreus 9:23, o autor a prende ao sacrifício único de Cristo. O texto não menciona uma nova aplicação de sangue em 1844 nem uma mudança tardia de compartimento necessária para completar o valor redentor do Calvário.
Cristo se assentou porque seu sacrifício é suficiente
Hebreus 10 torna o contraste ainda mais claro. O sacerdote levítico permanecia ministrando e “oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados”. Sua repetição mostrava a insuficiência do sistema.
Cristo é apresentado de modo diferente: “Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus” (Hebreus 10:12). O versículo 14 acrescenta: “Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados.”
Jesus continua vivo, reina e intercede. O que não continua é a oferta pelo pecado. Por isso Hebreus 10:18 conclui: “Ora, onde há remissão destes, não há mais oblação pelo pecado.”
A lógica do capítulo é incompatível com a ideia de que o pecado do crente ainda dependa de uma fase expiatória iniciada em 1844 para receber um tratamento que o sacrifício de Cristo não havia assegurado.
O juízo existe, mas não completa o Calvário
A Escritura ensina juízo, responsabilidade e prestação de contas. O problema não é afirmar que Deus julga. O problema é transformar esse fato numa fase expiatória datada de 1844 e vinculada à purificação do santuário.
O juízo divino não existe para suprir falta de conhecimento em Deus. Cristo conhece os seus. O juízo manifesta a justiça de Deus e sua sentença; não descobre para ele quem pertence ao Salvador.
O crente responderá diante de Deus por sua vida, mas sua justificação não fica suspensa até que seu nome seja examinado num processo celestial iniciado no século dezenove.
Jesus declarou: “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5:24).
A verdadeira função do santuário celestial
Negar o juízo investigativo não exige negar o santuário celestial. Hebreus 8:1-2 afirma que temos um Sumo Sacerdote assentado nos céus, “ministro do santuário, e do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem”.
O erro está em fazer a sombra controlar a realidade. O tabernáculo terrestre possuía sacerdotes mortais, sacrifícios repetidos e acesso limitado. Cristo cumpre e supera tudo isso. Seu sacerdócio é eterno. Seu sangue é suficiente. Sua entrada é eficaz. Sua intercessão continua.
Por isso Hebreus 10:19 fala de “ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus”, e o versículo 22 chama os crentes a se aproximarem “com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé”. A consequência pastoral do santuário em Hebreus não é suspense sobre um processo iniciado em 1844. É acesso e confiança por causa do sangue já derramado.
A obra de Cristo terminou ou continua?
A resposta bíblica exige precisão. A obra sacrificial de Cristo foi concluída. Ele não será novamente imolado, não repetirá sua oferta e não precisa acrescentar mérito ao Calvário. A redenção obtida por seu sangue é chamada eterna.
Ao mesmo tempo, o Cristo ressuscitado continua agindo. Ele reina, intercede, preserva os seus e conduzirá a história até sua consumação. Dizer que o sacrifício foi consumado não significa dizer que Cristo está inativo no céu.
Essa distinção impede a confusão. O ministério presente de Cristo aplica os benefícios de uma obra concluída; ele não transforma a cruz na primeira parte de uma expiação que somente teria entrado em sua fase final em 1844.
A segurança cristã não repousa numa data posterior ao Novo Testamento. Repousa no Sumo Sacerdote que já entrou por nós, no sangue que já efetuou eterna redenção e no sacrifício único pelo qual ele aperfeiçoou para sempre os que são santificados. É por isso que o cristão pode se aproximar de Deus com “inteira certeza de fé”.
Leia também: Adventismo: Uma Seita ou Uma Denominação Cristã? · Adventismo e o Espírito Santo: Inspiração Profética ou Controle Doutrinário? · Adventismo e Escatologia: O Fim dos Tempos Segundo Ellen White


0 comentários