Chamar a Idade Média de “era de trevas” parece resolver de uma vez o julgamento da igreja naquele período. A expressão, porém, não distingue quem praticou um abuso de quem procurou corrigi-lo. Também deixa sem explicação as escolas, os livros copiados e o acolhimento oferecido em instituições religiosas. Como reconhecer essas contribuições sem diminuir a gravidade das falhas?
A resposta exige avaliar práticas concretas e distinguir o benefício de uma obra da fidelidade de quem a realizou. Uma escola não absolve um dirigente corrupto. Um dirigente corrupto tampouco prova que todas as comunidades de seu tempo abandonaram a fé. Você pode reconhecer o que houve de proveitoso e manter a Escritura como critério para julgar o ensino e a conduta da igreja.
No Ocidente latino medieval, o latim tinha lugar na vida religiosa e nos estudos. Essa parte da cristandade não representa toda a história cristã daqueles séculos. Tratá-la como uma pessoa que sempre fez as mesmas escolhas apaga diferenças entre instituições e épocas.
Autoridade, cargos e o dever de cuidar
A autoridade religiosa pode ser usada para obter vantagens. No século onze, Gregório VII combateu a simonia, a compra e venda de cargos eclesiásticos. O cargo passava a ser tratado como algo negociável, em prejuízo da responsabilidade que deveria orientar seu exercício.
O esforço de enfrentar essa prática mostra que havia conflitos dentro da instituição. Isso não significa que todo clérigo comprava sua posição ou que a reforma eliminou o problema. A existência do abuso e a tentativa de corrigi-lo pertencem à mesma história.
O critério cristão para avaliar essa conduta aparece na orientação de Pedro aos responsáveis pelo rebanho:
“Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho.” (1 Pedro 5.2-3, ACF)
Pedro trata de pessoas confiadas ao cuidado dos presbíteros, os líderes da comunidade. O rebanho pertence a Deus, e o exercício da autoridade deve refletir essa responsabilidade. A ganância e o domínio contradizem o cuidado exigido. No versículo seguinte, a referência ao Sumo Pastor lembra que os dirigentes também estão debaixo de autoridade.
Essa passagem permite julgar a exploração religiosa com firmeza. Provar que determinada pessoa cometeu um abuso, porém, exige documentação histórica. Também seria indevido condenar toda participação pública da igreja. A questão é o uso da posição recebida. A antiguidade de um cargo não o coloca acima da correção bíblica.
O trabalho das escolas e dos mosteiros
O retrato muda quando você passa das acusações gerais às atividades realizadas. Houve participação do clero na supervisão de escolas e em obras de caridade. Mosteiros acolheram viajantes, enfermos e pobres. Entre os cistercienses, uma ordem monástica medieval, a produção de cópias de livros fazia parte do trabalho registrado.
Essas atividades tiveram destinatários concretos. Quem recebia abrigo obtinha um benefício que não desaparece porque a instituição também estava sujeita a erros. Copiar livros contribuía para que textos continuassem disponíveis. Houve ainda reflexão teológica: Tomás de Aquino estudou a relação entre fé e razão. A existência desse trabalho intelectual contraria a descrição de uma época inteiramente hostil ao pensamento, sem garantir que suas conclusões fossem sempre corretas.
Isso não significa que todos os mosteiros ofereciam os mesmos serviços, que a igreja inventou a educação ou que só religiosos cuidavam de necessitados. Também seria excessivo atribuir à igreja medieval toda a conservação da cultura. As contribuições documentadas têm alcance definido.
Reconhecer essas contribuições pode servir para desculpar abusos? Pode, se virar uma defesa automática da instituição. Cada prática precisa receber a avaliação que lhe cabe. O acolhimento de um enfermo não paga a dívida moral de quem explora outra pessoa. A exploração tampouco torna imaginário o cuidado oferecido.
O benefício de uma obra pode ser reconhecido historicamente; o coração de seu responsável não está aberto ao nosso exame. Você não precisa certificar a fé de todos os envolvidos para agradecer pelo bem realizado.
A Bíblia entre os livros copiados
Há manuscritos do Novo Testamento datados até o século quinze. Antes da reprodução impressa, o texto era transmitido por cópias feitas à mão. A existência desses manuscritos permite falar de transmissão bíblica através do período medieval. Ela impede tratar aqueles séculos como um intervalo em que a Escritura simplesmente deixou de existir.
A cópia de livros por monges e a conservação de manuscritos bíblicos são elementos dessa história. Não demonstram um monopólio do Ocidente latino sobre a transmissão da Bíblia. Também não permitem afirmar que cada livro copiado num mosteiro era bíblico.
Conservar um texto e torná-lo acessível a todos são questões diferentes. Saber que existiam manuscritos não informa, sozinho, quem podia lê-los ou ouvi-los. Tanto a ideia de uma Bíblia desaparecida quanto a suposição de acesso igual para todos excedem o que esse dado demonstra. O acesso precisa ser estudado em situações determinadas.
Possuir o texto bíblico também não garante obedecer a ele. Na oração pelos discípulos, Jesus afirma que lhes deu a palavra do Pai. Pede proteção enquanto continuam no mundo e os envia à missão. Nesse contexto, ele ora:
“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” (João 17.17, ACF)
A palavra recebida deve formar a vida dos discípulos. A oração trata de sua santificação, sem descrever a conservação de manuscritos medievais. Seu ensino oferece um critério para avaliar a igreja: a fidelidade envolve submeter a vida à verdade de Deus.
Isso alcança você quando tem a Bíblia à mão, mas usa a tradição de sua comunidade para evitar uma correção. Que lugar a palavra de Deus ocupa quando confronta um costume que você aprendeu a defender?
Cristo edifica uma igreja que precisa de correção
Se dirigentes e instituições erraram, a igreja de Cristo desapareceu? Depois de Pedro confessá-lo como o Cristo, o Filho do Deus vivo, Jesus declara:
“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;” (Mateus 16.18, ACF)
Jesus se apresenta como aquele que edifica sua igreja. Essa é a base da confiança em sua continuidade. Pouco depois, Pedro resiste ao anúncio do sofrimento de Cristo e recebe uma correção severa. O contexto impede usar a promessa para tornar um dirigente imune à repreensão.
A interpretação de “esta pedra” envolve divergências entre cristãos. O ponto expresso sobre a ação de Jesus permanece: ele edifica sua igreja. Isso não declara impecável cada instituição histórica nem aprova qualquer prática adotada por uma autoridade religiosa.
Convém distinguir a comunidade dos que pertencem a Cristo da totalidade de pessoas que professam a fé e ocupam posições religiosas. Deus conhece os seus; nosso conhecimento dos corações é limitado. As falhas de dirigentes não bastam para decretar o desaparecimento do povo de Deus.
Confiar que Cristo preservou sua igreja é uma conclusão teológica apoiada em sua promessa. A história pode documentar ações e ensinos, mas não oferece um veredito infalível sobre o destino eterno de populações inteiras.
No século dezesseis, a Reforma manteve verdades do cristianismo anterior, como a Trindade, a ressurreição e a autoridade das Escrituras. Reconhecer essa continuidade não reduz a necessidade de correção que a Reforma afirmou. Evita, porém, contar a história como se todo o conteúdo da fé tivesse desaparecido e precisasse ser inventado novamente.
Quando você voltar a ouvir “era de trevas”
Ao ouvir uma condenação da igreja medieval inteira, procure saber qual prática está sendo julgada e em que contexto. Ao ouvir uma defesa baseada em obras de caridade ou na antiguidade da instituição, examine se ela responde à acusação concreta. O serviço prestado por alguns não autoriza esconder o dano causado por outros.
Essa disciplina também protege você hoje. Uma liderança pode realizar trabalho útil e ainda precisar responder por uma conduta errada. Você pode reconhecer o serviço sem entregar a ninguém o direito de se colocar acima da Palavra. Se as falhas do passado abalam sua confiança, lembre-se de onde Jesus a fundamenta: ele edifica sua igreja. Essa promessa permite encarar a história sem encobrir o pecado nem concluir que Cristo abandonou os seus.


0 comentários