Uma igreja não se torna seita porque suas mulheres usam véu, porque seu culto é diferente ou porque possui costumes mais rígidos. O teste bíblico é mais sério: quem ocupa o centro da salvação? Qual autoridade governa a consciência? O evangelho é suficiente ou recebe acréscimos? A igreja reconhece que Cristo possui um povo maior do que sua própria estrutura ou transforma a própria organização em fronteira da graça?
Quando esses critérios são aplicados à Congregação Cristã no Brasil, é necessário fazer uma distinção. Seus pontos doutrinários formais contêm afirmações cristãs importantes: reconhecem a Bíblia como Palavra de Deus, confessam um só Deus em três pessoas, afirmam Jesus Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem e relacionam o novo nascimento à fé em Cristo. Por isso, seria incorreto classificá-la como seita simplesmente alegando que nega a Trindade, a divindade de Cristo ou a autoridade bíblica.
O problema aparece quando crenças e práticas difundidas no ambiente da denominação entram em choque com essas próprias afirmações.
O que caracteriza uma seita?
Nem toda divergência doutrinária produz uma seita. Cristãos podem discordar sobre dons espirituais, escatologia, governo da igreja, véu ou outras questões secundárias sem abandonar o evangelho.
O problema muda quando uma organização diminui a suficiência de Cristo, acrescenta condições humanas à salvação, cria uma autoridade paralela às Escrituras ou se apresenta como o único ambiente onde a graça de Deus pode ser encontrada. Também existe risco sectário quando regras internas passam a governar a consciência como se possuíssem a mesma autoridade da Palavra.
A graça pertence a Cristo, não a uma denominação
Uma das ideias mais preocupantes difundidas no ambiente da CCB é a de que a verdadeira graça estaria na própria Congregação, vista como o tronco principal, enquanto outras igrejas seriam apenas ramos. Mesmo quando essa formulação não aparece como ponto oficial de doutrina, sua consequência é clara: a segurança da salvação passa a ser ligada à pertença denominacional.
Pedro declara:
“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.”
Atos 4:12
Pedro identifica o nome salvador: Jesus Cristo. Ele não aponta para uma instituição, sucessão denominacional ou comunidade específica. A exclusividade pertence a Cristo.
Paulo escreve:
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.”
Efésios 2:8-9
A própria história torna o exclusivismo denominacional insustentável. A CCB começou seu trabalho no Brasil no início do século XX. Se somente nela existisse verdadeira graça, seria preciso concluir que os cristãos que confiaram em Cristo antes de seu surgimento estavam fora da salvação. O Novo Testamento não permite essa conclusão. Cristo salva pecadores; nenhuma denominação pode transformar sua existência histórica em condição do evangelho.
“A letra mata” não proíbe o estudo da Bíblia
Outra característica problemática é a resistência ao estudo sistemático das Escrituras, justificada pela ideia de que o Espírito Santo dirige tudo e, por isso, não seria necessário preparar-se ou examinar cuidadosamente o texto bíblico.
Segunda Coríntios 3:6 diz:
“O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.”
Paulo não está contrastando “estudar a Bíblia” com “ser guiado pelo Espírito”. O contexto contrapõe a antiga aliança, gravada em pedras, ao ministério da nova aliança. A “letra” que mata não é o estudo bíblico; é a lei em sua função condenatória diante do pecador.
A própria Escritura elogia a meditação na lei do SENHOR “de dia e de noite” (Salmos 1:2).
Depender do Espírito e estudar a Palavra não são atividades rivais. Uma comunidade que desencoraja o exame bíblico sério aumenta a dependência de explicações recebidas oralmente e reduz a capacidade de seus membros testarem o ensino que recebem. Nenhuma experiência espiritual pode corrigir ou ultrapassar a Escritura.
O batismo pertence a Cristo, não à CCB
Também merece exame a rejeição do batismo realizado em outras igrejas cristãs, levando pessoas que ingressam na CCB a serem batizadas novamente mesmo quando já receberam batismo por imersão sob confissão trinitária.
Jesus ordenou:
“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;”
Mateus 28:19
A autoridade do batismo está em Cristo. Nenhuma denominação pode transformar sua própria estrutura em requisito para a validade da ordenança.
Mais sério ainda é atribuir ao batismo função regeneradora ou purificadora. Tito 3:5 atribui a regeneração à ação do Espírito Santo, e 1 João 1:7 declara que o sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo o pecado.
O batismo deve ser obedecido porque Cristo o ordenou, mas a água não substitui o sangue de Cristo nem concede poder salvador a uma denominação.
Quando costumes passam a medir espiritualidade
Véu, ósculo santo, fórmulas de saudação e posições sobre o dízimo não provam, isoladamente, que uma igreja seja seita.
Primeira Coríntios 11 precisa ser levado a sério na discussão sobre o véu. Cristãos podem divergir sobre sua aplicação hoje. O erro começa quando uma prática externa se transforma em evidência de que determinada comunidade está espiritualmente acima das demais.
O mesmo vale para o ósculo santo e para fórmulas de saudação. O Novo Testamento não transforma nenhuma delas em credencial exclusiva da verdadeira igreja.
A discussão sobre o dízimo exige o mesmo cuidado. É legítimo perguntar se ele funciona como obrigação normativa para a igreja da nova aliança. Outra coisa é declarar pecaminoso o cristão que separa dez por cento de sua renda para contribuir. Quando costumes e regras internas ganham peso de fronteiras espirituais, a tradição começa a ocupar um espaço que pertence à Palavra.
Jesus é o Pastor supremo, mas deu pastores à igreja
Também aparece no ambiente da CCB a afirmação de que somente Jesus pode ser chamado de Pastor e que pastores de outras igrejas seriam homens carnais.
Cristo é, de fato, o Supremo Pastor e o dono do rebanho. Nenhum ministro humano pode ocupar seu lugar. Mas o Novo Testamento reconhece ministros humanos chamados a pastorear o povo de Deus. Paulo disse aos presbíteros de Éfeso:
“Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue.”
Atos 20:28
O pastor fiel não concorre com Jesus; serve debaixo da autoridade de Jesus. Negar a legitimidade do ministério pastoral fora da própria estrutura reforça o isolamento denominacional.
A ordem de evangelizar já foi dada
Outra ideia que precisa ser corrigida é a de que o evangelho só deve ser anunciado quando houver uma direção específica do Espírito para aquela ocasião.
A igreja deve depender do Espírito e agir com sabedoria, mas a ordem missionária já foi dada:
“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.”
Marcos 16:15
Quando uma comunidade se mostra mais empenhada em trazer para si pessoas que já professam fé em Cristo do que em anunciar o evangelho aos que não o conhecem, o resultado se aproxima do proselitismo denominacional. A missão cristã não é convencer o crente de que a graça está em outra placa, mas anunciar o Salvador.
Nem toda diferença da CCB prova sectarismo
Justiça apologética exige reconhecer que algumas características da CCB pertencem ao campo das divergências entre cristãos. A atualidade dos dons espirituais, o batismo no Espírito associado a línguas, o pré-milenismo, a oração por enfermos e a unção com óleo podem ser discutidos biblicamente, mas não possuem o mesmo peso do exclusivismo salvífico ou da elevação de costumes à condição de fronteira da graça.
Também seria errado concluir que todo membro da CCB pensa da mesma maneira. A crítica bíblica deve alcançar o sistema e suas ideias sem transformar seus membros em caricaturas.
Então, a Congregação Cristã no Brasil é uma seita?
Sim, há razões suficientes para identificar na Congregação Cristã no Brasil características sectárias graves e, em sentido apologético, classificá-la como seita quando seu exclusivismo denominacional e suas práticas internas são tratados como fronteiras da verdadeira graça.
Essa conclusão não se baseia na alegação de que a CCB oficialmente nega a Trindade, a divindade de Cristo ou a Bíblia. Seus pontos doutrinários afirmam verdades cristãs importantes. O problema está na contradição entre essas afirmações e uma cultura religiosa em que a própria Congregação pode ser tratada como detentora privilegiada da graça, outros batismos são invalidados, o estudo bíblico é desencorajado e costumes recebem peso que a Escritura não lhes concede.
A questão decisiva é o lugar ocupado por Jesus Cristo e por sua Palavra. Se uma igreja afirma que Cristo salva, mas na prática faz o crente depender também da pertença à organização, algo foi acrescentado ao evangelho. Se afirma que a Bíblia é a Palavra de Deus, mas não estimula seus membros a examiná-la, existe uma contradição que precisa ser enfrentada.
Nenhuma igreja salva. Nenhuma placa possui a graça. Nenhuma tradição completa a obra de Cristo. A igreja fiel aponta para o Salvador e se submete à Palavra; nunca ocupa o lugar de nenhum dos dois.
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